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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Compreensão

     Voltar ao jardim, cuidar das raízes que ainda alcançam os lençóis de água e pouco a pouco, na medida do tempo, voltar a regar as permanências. Depois de algum tempo levantar, bater a poeira da roupa, abrir os olhos para o mar. Cuidar das árvores, colher os frutos que ficaram esquecidos. Construir um muro vivo de rosas, lembrando sempre de que cada acesso agora, recorre em dor. Fechar o portão que foi deixado aberto pelas partidas, plantar girassóis na entrada.  Ah... os dias no Rio de Janeiro me fizeram encostar em uma árvore do jardim, assim, de frente para o mar, sentindo o coração da árvore pulsando, coração da árvore que era o meu, debruçado sobre a superfície, que me devolvia certeza de estar viva. Cuidar dessa árvore da vida e evitar de querer sair do espaço-corpo por excesso de aperto, mas compreender que é pulsando sem dor que a vida acontece, simples e leve. 
       Porém, é aí que um coração torna-se pequeno para o amor inteirinho que existe no universo, é aí que começamos a entender a limitação do corpo perecível, que abriga o eterno. É aí que eu quis tornar-me árvore, porque nela cabe sim, todos os sentimentos do mundo. Depositar-me aos pés de uma árvore, lentamente, com cuidado e sem dor. Aos poucos sentir que os fragmentos são conectados ao fluido de vida eterna, aos galhos que tocam o céu e abrem-se em flores. Enfim compreender que os pássaros vão e voltam, que o florir é marcado pelas estações, compreender não mais com pesar, mas com firmeza de árvore, compreender com sabedoria, com tranquilidade, com leveza de árvore, com leveza de quem compreende a eternidade. Compreender, enfim, compreender.

Mariana Zogbi

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Siú,


Só agora eu tive coragem de lhe escrever. Sei que você recebeu minhas cartas mentalmente, mas não havia ânimo para deixar-te em palavras não etéreas. Sabe o que eu não entendi? O que é que se faz depois de morrer. O que é que se faz depois que esses sete graus e dedos roxos tocam a tecla sem sentir que dói? Sei que está frio e a razão me avisa para que eu beba qualquer coisa quente. É assim que funciona então? A razão entra em paranoia com o corpo depois que se morre? Mas isso é a razão ou a alma, porque não estou tateando e alma não sente frio igual o corpo sente, então não teria sentido que ela me avisasse para beber algo quente. Não some Siú, senão eu não sei como fazer depois de.   
Mariana,
Considere um aumento de temperatura  depois de. Por enquanto é a razão, ela age antes do sucumbir. Há muito o que fazer depois que se morre. Ontem eu estive com uma rosa, ela era linda e florida, enorme, mas tão menor que um trator... E foi assim que aconteceu, o trator passou por cima dela. Abaixei-me e restava um pedacinho de pouco menos de 4cm. Depois que se morre, Mariana, deve-se nascer de novo. É trabalhoso e para rosa não será fácil. Será longa a espera, por meses e talvez anos, mas ela também poderá escolher se deseja crescer para atingir seu objetivo de rosa, ou se deixa virar espinho seco no pé. A rosa pode escolher isso, momentaneamente, mas eu sei que o trator soterrou algumas sementes e é aí que a rosa não pode mais opinar. O tempo é senhor.

Siú,
Mas e quando a rosa não deixou sementes e os espinhos sufocaram os 4cm, o que se há de fazer?

Há de se reinventar, Mariana. A alma é indivisível, mesmo que você não veja as sementes, elas existem. E não é preciso acreditar, nem tatear para que ela exista, ela existe porque não há trator, não há soterramento, não há espinho, não há nada que mate a alma. Há de se nascer de novo nesse ciclo que você bem compreende. O tempo é senhor.

Eu entendo. Mas qual a função de um ser morto na reinvenção, Siú? Você não compreendeu a minha pergunta.

Não, Mariana, foi você que não compreendeu a minha resposta. Em outras palavras: moléculas de mercúrio à temperatura ambiente. Há de se reinventar. “É o próprio apesar de que nos empurra para frente”. 



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