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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Nasci para Comprar Amoras

Havia ainda sobre as janelas um pouquinho de orvalho da madrugada. O quarto escuro, em uma quase noite que puxava a manhã pelo braço antes mesmo das oito horas. Dispensei a madrugada ao abrir as janelas, para deixar entrar os raios de sol que espreguiçavam sobre o meu rosto, mal podia enxergar as hortênsias que havia amanhecido com os passarinhos. O céu era de um azul estonteante, parecia aquarela. Eu estava sozinha, como gostava mesmo de estar. Gostava de sentir a casa no mais puro contentamento da ausência, fechada, ainda dormente pelo abajur de luz azul da sala de estar. Quase nunca calçava chinelos, porque gostava de sentir o frio do chão, o contato das coisas finitas da Terra. E aos poucos ia abrindo as janelas, colocando a água no bule para fazer um café e enfim, começar mais um dia. Em Minas Gerais ainda existem os bules, o cheiro intenso do café. Saí de casa como quem desabrochou em uma manhã de primavera. Não doía o sol sobre a pele, nem a brisa sobre os cabelos, mas era como se algo maior abraçasse o corpo, a alma. Como quando a gente era criança e levava tombo dos balanços e das peraltagens, e a mãe vinha correndo levantar a gente. Foi assim que essa manhã me levantou. Há dias em que a cama da gente é do tamanho do mundo e o percurso fora dela significa perder-se no espaço. Nasci para tanta coisa, que talvez uma vida não seja suficiente para que eu cumpra as funções todas, mas, definitivamente, não nasci para perder-me no espaço das coisas vazias. Fui andando até a rua principal, porque era um compromisso antes das 8h da manhã, a mãe me disse: "Amanhã, já que você acorda cedo, vá atrás do senhor das amoras", e foi assim nessa manhã, ao tocar a rua com meu corpo resistente ao espaço fora da cama, eu nasci. Eu nasci para comprar amoras.

Mariana Zogbi

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Compreensão

     Voltar ao jardim, cuidar das raízes que ainda alcançam os lençóis de água e pouco a pouco, na medida do tempo, voltar a regar as permanências. Depois de algum tempo levantar, bater a poeira da roupa, abrir os olhos para o mar. Cuidar das árvores, colher os frutos que ficaram esquecidos. Construir um muro vivo de rosas, lembrando sempre de que cada acesso agora, recorre em dor. Fechar o portão que foi deixado aberto pelas partidas, plantar girassóis na entrada.  Ah... os dias no Rio de Janeiro me fizeram encostar em uma árvore do jardim, assim, de frente para o mar, sentindo o coração da árvore pulsando, coração da árvore que era o meu, debruçado sobre a superfície, que me devolvia certeza de estar viva. Cuidar dessa árvore da vida e evitar de querer sair do espaço-corpo por excesso de aperto, mas compreender que é pulsando sem dor que a vida acontece, simples e leve. 
       Porém, é aí que um coração torna-se pequeno para o amor inteirinho que existe no universo, é aí que começamos a entender a limitação do corpo perecível, que abriga o eterno. É aí que eu quis tornar-me árvore, porque nela cabe sim, todos os sentimentos do mundo. Depositar-me aos pés de uma árvore, lentamente, com cuidado e sem dor. Aos poucos sentir que os fragmentos são conectados ao fluido de vida eterna, aos galhos que tocam o céu e abrem-se em flores. Enfim compreender que os pássaros vão e voltam, que o florir é marcado pelas estações, compreender não mais com pesar, mas com firmeza de árvore, compreender com sabedoria, com tranquilidade, com leveza de árvore, com leveza de quem compreende a eternidade. Compreender, enfim, compreender.

Mariana Zogbi

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