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sábado, 14 de janeiro de 2017

E não me conclua

"Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis."

Mariana, 

Lamento muito. Estou meio atrapalhado com as palavras, não sei o que dizer diante dessa situação, mas não queria que você pensasse que meu silêncio é descaso ou descarte, você sempre será meu refúgio e amor.
Seu sempre, 

Siú.


Siú,

     Teus telegramas me causam espanto e surpresa, penso em você constantemente e após anos, penso que talvez você tenha virado um eco, apenas, e não essa luz toda quando recebo tuas palavras. Eu te procuro mentalmente todos os dias, não mais me chateio com as tuas demoras ou telegramas sobre qualquer assunto, mas, no fundo, gostaria que você fosse menos sucinto, não vou entrar nesse mérito agora, mas saiba que sinto tua falta.
     Sobre tua mensagem, quero dizer, teu bilhete, telegrama ou melhor, recado: também lamento muito. Lamentei mais, senti o peso de viver como se fosse um dever. Doeu-me os ossos, os músculos e a alma, a rotina violentou meu desejo de permanecer quieta e me calou o direito ao grito. 
     Fiz um boletim de ocorrência contra essa rotina, entrei naquela sala fria de pessoas doloridas como eu estava e reclamei o meu direito de não querer sentir a vida como uma obrigação. Descrevi o ocorrido, mencionei a falta de amor, a incompreensão e meu sentimento de revolta e pena, não poupei as lágrimas, Siú, chorei meus poços todos. 
    Depois, ao sair de lá, fui abençoada, o céu estava com uma cor incrível e o sol se punha por entre os concretos altos dos muros que construí... Senti que a obrigação de viver ia se desfazendo em asfalto molhado pela última chuva de verão, senti que percorria pelo meu corpo um calor de abraço divino. Caminhei em direção ao pôr do sol e entrei em uma farmácia e de súbito, lembrei daquele trechinho da Clarice:


" Por que é que você me pede tanta aspirina? Não estou reclamando, embora isso custe dinheiro.
- É para eu não me doer.
- Como é que é? Hein? Você se dói?
- Eu me dôo o tempo todo.
- Aonde?
- Dentro, não sei explicar."


   Queria essa aspirina aí, hoje e ontem, mas comprei chocolates, que causam o efeito parecido. Quando estou comendo chocolates, lembro que o faço porque fui violentada pela rotina, mas também lembro que o sol se põe por entre meus muros e saber da existência do sol, Siú, tem me deixado em paz.

Mariana


Mariana,

Incrível como você precisa me mostrar que eu deveria ser mais por você. Como me cobra as palavras e as cartas. Diante de tudo, pensei que você fosse apenas se alegrar com meu "telegrama", como você mesma disse. Pare de cobrar o infinito do perecível, por favor.

Siú


Siú,

Não condicione as tuas verdades à minha psiquê. Compreenda que sou caleidoscópia e não me conclua. 
Até breve,
Mariana
  

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