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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Alice

Eu estava no corredor da sala de espera, andando de um lado para o outro. As mãos suavam, pensava em Alice, pensava em mim, nas dores de parto e nas feridas. Esbarrava nos pensamentos e sangrava. Olhava para o relógio, não via nada. Eu não via nada além de Alice. Nada nos ensinam sobre gestação, sobre segurar as mãos de uma criança e é um crime que a mãe esteja apreensiva ou triste com a chegada do seu bebê. Fruto dessa fantasia, eu pensava na maternidade como algo simples, tudo seria possível, tudo seria enfrentado com bastante entusiasmo e alegria, mas eu fracassei. À espera de Alice, perdi meu emprego, porque o patrão não aceitava que eu saísse mais cedo várias vezes por semana, ou que chegasse mais tarde por conta do desconforto que a maternidade estava me causando. Fui demitida por "justa causa". Não, meus amigos não apoiavam a ideia, mas, aos trinta e tantos anos de idade, você decide como deve seguir a própria vida, as opiniões alheias surtem pouco ou nenhum efeito sobre suas escolhas, o máximo que causam são pequenos desconfortos. Meus pais tinham certeza que eu estava cometendo o maior erro de toda minha vida, eu via nos olhos de minha mãe, banhados em lágrimas, me pediam para repensar a ideia. Talvez fosse medo de que eu não tivesse energia suficiente para suportar a gestação, que quisesse desistir no meio do caminho, ou que algo ruim acontecesse comigo. Enfim, eu estava sozinha e a solidão nunca me assombrou tanto como desta vez. Talvez eu tivesse que tentar, para provar para mim mesma que não era a hora, que aquilo jamais teria hora, que eu  estava errada. Talvez essa fosse a chance que a vida havia me dado. Pensar em Alice renovava as minhas forças, eu tinha vigor para correr atrás dos meus sonhos, que se resumiam em uma vida: eu era mãe, então.
Na sala de espera -mais uma de muitas-, eu via Alice chegar. Não pude conter as lágrimas, seria minha, minha Alice. Ela caminhava em direção dos meus braços, abertos e trêmulos. Estava concluído então, todo o processo de longos dois anos de gestação. Não,  não me ensinaram que a gestação é diferente de mulher para mulher e apenas uma coisa eu tinha em comum com todas as outras mães: a espera. Não era mais um bebê no meio dos escombros, não era mais medo, nem angústia, nem espera, não havia mais enjoos. Não me contaram como é difícil tornar-se mãe em meio ao caos, esperar dois anos para segurar a própria filha nos braços. Não me contaram que depois que se é mãe, quase todos os pensamentos se direcionam ao filho, que naturalmente se tem insônia, dores fortes de parto normal, mesmo que a alma esteja pronta. Quando fui mãe, Alice tinha 2 anos, eu 33.

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