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sábado, 31 de outubro de 2015

Aprendizagem

Ela caiu no chão e eu morri. 
Eles tiraram a vida dela, mas eu estava morta. Passei a viver uma injustiça, pois não era certo ela ter ido, a morta era eu, foi um erro, um engano. E eu morria cada vez mais, enquanto ela vivia em algum outro lugar inacessível. Com certeza tinha enfeitado o lugar onde estava, era certo de que havia flores, música, livros, muito chocolate e abraços. Mas era injusto que ela tivesse ido, que tivesse tido que enfeitar a sua existência em uma dimensão desconhecida. Era injusto eu ter deixado o carro aberto tanto tempo, era injusto que aquela bala travasse as maquinarias do seu coração e aos poucos a minha existência. Em meus dias, eu tirava a poeira dos móveis, bebia um copo de água observando a janela, a rua, os carros, o sol de rachar. Andava olhando as formigas e as flores que carregavam naquela tarde: rosas. Para mim, viver era injusto, eu não merecia viver, porque estava morta e ela não merecia morrer, porque estava viva. E estava viva porque eu sentia. Eu sentia aquela risada, aquele olhar vívido, sentia o desespero, via o gatilho e depois a vida dela, a minha vida, no chão daquela calçada. Eu morria enquanto os homens corriam e isso era injusto, eu nada pude fazer senão segurar a vida dela que me restava. Eu morria, mas ela tentava falar e me acalmar, eu morria porque queria morrer, porque queria fazer da morte dela a minha, eu morria porque o carro estava aberto, porque os homens tinham corrido, eu morria porque a minha vida foi calada no silêncio daquela bala. E eu nunca mais perdoei a minha morte, nunca mais eu perdoei aquela correria que me afastava dela, que me afastava do verdadeiro sentido de viver. Nunca mais eu perdoei os carros nas ruas, o barulho dos aviões, das ambulâncias e da multidão. Eu perdoei os olhos dela naquele dia, roubavam a minha vida, mas eu perdoei. Perdoei aquelas sobrancelhas grossas que não conseguiram suportar o peso dos olhos, deixando-os cair em sono. Mas o sono eu não perdoo, pois o cansaço era meu, eu quem havia trabalhado demais. E aquela morte era minha, tudo o que eu tive que aprender depois, foi viver. Como levantar da cama, como jogar o lixo fora, como organizar os papéis, dormir, fazer uma refeição. Eu tive que aprender a viver com meu coração atravessado por uma bala, e acreditem, às vezes ele pára. 

Mariana Zogbi 

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