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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Nasci assim, incumbida

Pequena, lá no fundo. Algumas estrelas azuis na parede, que também era azul clarinho. A pintura de um bebê, alguns livros e uma pilha intocável de revistas. Um secretário que mais parecia porteiro, pouco falava ao telefone, a campainha que não parava, as cadeiras azuis, a bolsa azul ocupando uma cadeira. Agora uma moça, cabelo roxo, saiu agradecendo, depois outra de jeans, como ela se chamava mesmo... Sueli, entrou também. A moça de óculos anos 70 me olhava, eu olhava o livro: Marina Colasanti, a esposa que não trouxe o marido porque ele teve um compromisso, o porteiro, camisa branca. O quadro, as estrelas, o chão... Um outro homem, magro, alto. A mesinha, a garrafa de café, a pilha de revistas, paçocas e notebook, parede azul, as orquídeas amarelas. Tantas histórias R$ 20,00; didático R$ 30,00; tantos motivos... Ah, se eu pudesse fazer sorrir aqueles olhares, ah se pintasse de amarelo e em um abraço dissolvesse o que fere e dói.  
Mariana Zogbi

"Que se repare que não menciono nenhuma vez as minhas impressões emotivas: lucidamente apenas falo de algumas das milhares de coisas e pessoas de quem eu tomo conta. Também não se trata de um emprego pois dinheiro não ganho por isso. Fico apenas sabendo como é o mundo.
Se tomar conta do mundo dá trabalho? Sim. E lembro-me de um rosto terrivelmente inexpressível de uma mulher que vi na rua. Tomo conta dos milhares de favelados pelas encostas acima. Observo em mim mesma as mudanças de estação: eu claramente mudo com elas.
Hão de me perguntar por que tomo conta do mundo: é que nasci assim, incumbida. E sou responsável por tudo o que existe, inclusive pelas guerras e pelos crimes de leso-corpo e lesa-alma. Tomo desde criança conta de uma fileira de formigas: elas andam em fila indiana carregando um pedacinho de folha, o que não impede que cada uma, encontrando uma fila de formigas que venha de direção oposta, pare para dizer alguma coisa às outras. Mas as formigas têm uma cintura muito fininha. Nela, pequena como é, cabe um mundo que, se eu não tomar cuidado, me escapa: senso instintivo de organização, linguagem para além do supersônico aos nossos ouvidos, e provavelmente para sentimentos instintivos de amor-sentimento, já que falam. Tomei muita conta das formigas quando era pequena, e agora, que eu queria tanto poder revê-las, não encontro uma. Tomar conta do mundo exige também muita paciência: observar as flores imperceptivelmente e lentamente se abrindo. Só não encontrei ainda a quem prestar contas.”

Clarice Lispector

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