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sábado, 6 de junho de 2015

Ser flor

A história que eu vou contar é dedicada às flores.

Essa história deveria ser a mais feliz das histórias, porque histórias de flor são histórias de primavera, são histórias de sensibilidade, cor e beleza singela. Mas é uma história triste. 
Não é uma história da flor de cacto, que cresce em meio aos espinhos... Nem de uma flor que nasce debaixo d'água e tem o peso do oceano todo sobre a cabeça... Não é a flor do deserto, que tem sede, mas não encontra oásis... A história é de uma flor linda, flor de janela... Dessas que tomam sol de manhãzinha, são regadas aos finais de tarde e recebem visitas de passarinhos, abelhas e borboletas... Certa vez, a flor começou a murchar... você poderá dizer que é por falta de água, de adubo, de qualquer coisa, ou até mesmo ingratidão de flor. Chamaram o floricultor, os apaixonados... Trocaram o solo, o adubo,  a janela... e ela não reagia. Constataram que era uma praga, uma lagarta ou um formigueiro... Não, não havia nada. Não havia mais borboletas, nem passarinhos ou abelhas, havia apenas aquela beleza adormecida sobre o vaso. Todos que passavam pela janela, pensavam que era ingratidão de flor, ela tinha tudo, era protegida das tempestades, dos ventos fortes, ali ninguém iria pisoteá-la ou arrancá-la para enfeitar uma sala, um quadro. Desse modo, a flor sentia certa obrigação de reagir, de ser flor novamente, de voltar a alegrar o local e todas as pessoas que ali passavam, processo lento, de restabelecimento, de amadurecimento que era impedido por todos os olhares e palavras lançadas sobre ela "Não tem jeito não...", "Ah, é assim mesmo, quando começa assim, morre. Acho que é uma praga que ainda não descobriram.", "Mas era tão bonita, menina! Olha como está murchando. tsc tsc tsc". Cansada, a flor ia sobrevivendo, com dor de flor, de pétalas baixas e caule curvado. 
Aconteceu o que todos esperavam, jogaram no lixo, a flor e o vaso. Ela foi substituída por uma rosa, linda. Agora sim, aquela janela voltara a brilhar.
A antiga flor foi resgatada por uma colecionadora de flores, ela entendia a alma das flores todas, sabia das suas necessidades e de seus medos. Ela sabia que aquela flor tinha passado por um trauma enorme: o de viver presa no vaso, o medo de altura, de cair lá da janela... Descobriu também que ela gostava de água da chuva, gostava do vento que balançava suas pétalas... gostava de viver em jardins que permitissem que ela fosse flor, morresse nos frios de inverno e revivesse com todas as primaveras, sem ser cobrada de algum tipo de beleza para enfeitar janelas. Ela queria ser e agora era.  

Mariana Zogbi

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