Traduzir

English French German Spain Italian Dutch Russian Portuguese Japanese Korean Arabic Chinese Simplified

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Empoçando Vazios

Cansada, sobre os olhos o peso de um fim de feriado que só pelo nome já pesa. Terça-feira e as coisas começaram cedo. Começaram antes de amanhecer. Desequilíbrios por pequenas coisas. Pequenas coisas são coisas de menor tamanho, nada têm a ver com valor, valorizo os detalhes. Eu poderia estar equilibrando meu sono, meu cansaço, minha semana que começou já no meio, mas aquela cena não saía da minha cabeça.
A moça era negra, cabelos castanhos, alisados, na altura do pescoço. Eu caminhava com passos curtos e rápidos em uma avenida muito movimentada, entre pessoas e pessoas e pessoas e canteiros de flor sem flor, orelhões e bancas de jornal, meus olhos encontraram os olhos da moça. Não, ela não era moça, era mulher, talvez uns 40 ou 50 anos. Seus olhos nadavam em lágrimas e a expressão do seu rosto era de tristeza, porque a gente chora de alegria também... Não é?! Mas a mulher chorava porque estava triste. E eu olhei tão fixamente nos olhos dela que retribuíam. A gota de lágrima tinha medo de cair, empoçava os olhos como chuva empoça os buracos da rua... Eu me perguntava qual seria o vazio que abrigava aquelas lágrimas e não tirava meus olhos dos vazios dela. Estávamos muito próximas e então eu abaixei meu olhar- sapatos de todas as cores e alturas, quando tentei me equilibrar novamente, ela já havia passado por mim e talvez estivesse olhando para trás, talvez estivesse se perguntando qual seria o meu problema. A verdade é que os vazios me chamam a atenção, o cinza, o escuro, o solitário, a falta, a neblina dos dias frios, estou sempre desequilibrando em um chão de neve, ou em ventos muito fortes. Desequilibro e recomponho dos pedaços. Quando recomponho quero desequilibrar só para equilibrar novamente e na ânsia de dar um sentido aos meus gostos, meus olhos procuram os que choram, e eles estão sempre muito próximos de mim.

Mariana Zogbi 

"A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio. Falava que os vazios são maiores e até infinitos." 

Manoel de Barros

0 comentários:

Postar um comentário

Conte-nos o que achou da postagem! Deixe seu comentário!

Procure aqui!

Quer receber as postagens? Cadastre seu e-mail!