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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Fim de


"No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde." Clarice Lispector
Não era um sábado qualquer. Era sábado de sol, depois de uma noite escura e que anunciava chuva. Sim. O milagre do dia começara aí, no sol.
Eram 10 horas e 20 minutos, tomei um ônibus em Copacabana para o Jardim Botânico. Comemoraríamos 6 anos do projeto "O Rio de Clarice". Eu estava ansiosa, pela janela do ônibus contemplava o Rio de Janeiro, o sol penetrava em minha alma, levava embora cansaços, preocupações, trazia esperança e uma certa paz que ocupava meu ser. Pedi para que o motorista me avisasse quando estivéssemos em frente ao Jardim, coloquei Adriana Calcanhotto no fone, eu estava inteira.
Desci, enfim. Ao entrar no Jardim Botânico eu sentia uma sutil alegria. Mais tarde, minha amiga chegou e em um grupo guiado por Teresa Monteiro fomos exalar Clarice Lispector.
Era o meu Rio de Janeiro pelo olhar Clariceano. Andamos sobre as linhas das crônicas-e não víamos o tempo passar, caminhávamos pelos contos- não contávamos os passos. Sim, havia poesia. Havia flores, a rosa era sábado.
Quando o passeio chegou ao fim, caminhamos para a saída. Agora, porém, estávamos em três. Estávamos indo para o Leme, visitar o Edifício onde morou Clarice e como se estivéssemos planejado, encontramos Paulo Gurgel Valente que estava com a mulher, saindo do jardim também. Cumprimentei ambos.
E ainda estou sem reação. Ele disse algumas palavras, eu apenas sorri. Observava o filho da escritora mais profunda que eu conhecia. Eu via a herança de Clarice.
Após o "tchau", continuamos nós três em direção ao carro e posteriormente estaríamos no Leme. De repente estávamos novamente sobre a linha das crônicas e contos, estávamos no edifício Visconde de Pelotas, onde não permanecemos por muito tempo.
Fomos então ao outro edifício, onde Clarice morou posteriormente. Entramos no elevador, 7° andar.
Queríamos encontrar Zezé Motta, que hoje mora no apartamento que foi de Clarice... Mas não havia ninguém no corredor, nem no elevador... Não havia ninguém. Havia apenas o pulsar dos nossos corações, o meu, quase na boca, em ritmo aceleradíssimo, eu estava vivendo algo que um dia fora apenas um pensamento, desses que não fazemos questão de continuar pensando, para não doer depois, para que não haja decepção.
Saímos do edifício, rumo ao restaurante La Fiorentina, a segunda casa de Clarice. Meu coração- nem sei se batia. Tudo parecia muito mecânico, eu não estava pensando, ou estava e não sabia- entreguei-me a desorganização de sentimentos que eu estava vivenciando.
Na entrada do restaurante encontramos com Mano Melo, para que a poesia estivesse completa. Conversamos com ele rapidamente e tamanho foi nosso espanto quando ele pronunciou a seguinte frase: "Estou indo na casa da Zezé Motta." (!) Apenas uma exclamação pode tentar definir o que sentimos. Não sentimos. Exclamamos com os olhos, com as mãos e até com lágrimas. Fora quase um roteiro de filme, novela, qualquer coisa pensada.
Eu estava atônita, caminhava em direção ao restaurante sem entender nada.
Meio tonta, escolhi uma mesa, sentamos então. Eu, Teresa e Greici, éramos três perguntas exclamadas. Havia sorrisos, sim, e eu recompunha da manhã no Jardim Botânico.
Comemos, enfim, pizza. E começamos a tentar colocar em ordem tudo que havia acontecido... Em vão. Escrevo para tentar entender o que não entendo.
A vida ao redor passava, como se eu estivesse parada em alguns momentos do dia, porque as horas não pararam para que eu pudesse entender-eu queria entender, e nessa minha ânsia, eu congelava os instantes- era fim de tarde e só me dei conta no meio da Baía de Guanabara, quando olhei pela janela da Barca e vi o sol indo embora. Foi-se então a minha rosa. Era fim de sábado.
Era quase domingo, fim de.

Mariana Zogbi

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