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terça-feira, 9 de outubro de 2012

Metade e Motivo

Dei-me ao luxo de não fazer nada. Mas, como nada nesse mundo nos vem sem sacrifício, mais tarde eu teria que pagar um preço caro para os dias em que tive a oportunidade de escrever.
Acordar cedo, quando não há nada na agenda, é a melhor das sensações, eu acordei cedo para ler.
Na estante um livro se encostava no outro, eu olhava por entre o vidro escuro, queria possuí-lo, mas havia os afazeres matinais, aqueles que não constam em agendas, mas que são essenciais ao despertar, por outro lado, era necessário que todo o ritual matinal acontecesse para que meu desejo de ler se tornasse um "frio na barriga", uma ansiedade inútil em ter o livro em mãos. Às vezes demorava um pouco para terminar o café, só para que a vontade de estar no sofá com o livro crescesse um  pouco.
Eis-me aqui. Eu, livro e uma leve decepção. Desta vez não fora possível a entrega, minha entrega ao livro. Algo cortava meus pensamentos e era necessário ler duas vezes a mesma coisa. Quero-me de volta!
Começo então, uma silenciosa luta, uma divisão, metade de mim lê, a outra metade é busca constante de  motivos pelo qual essa não faz o seu papel. E o seu papel era o de ler.
Ao fim do livro havia me habituado ao acontecimento paralelo: metade de mim lia, a outra metade buscava motivos.
Em minha ânsia de explicações para a outra metade, surge um cheiro de coisa queimada vindo da cozinha. Olho pela janela e afirmo: "É o pão do vizinho". Voltando para o meu estado anterior, o cheiro aumenta, sobre o sofá levanto os olhos e rapidamente alguém sai do quarto e reclama de alguma coisa. Naquele momento eu descobria que o cheiro vinha de minha cozinha, ainda sentada, com o livro no colo, certifico-me:
-Queimou?
-Sim, queimou meu arroz.
Volto às palavras do livro, tentando atingir novamente meu estado anterior, mas algo havia acontecido, o arroz estava queimado, tudo porque na minha necessidade em descobrir motivos para não ler inteiramente eu teria me desligado de tudo que estava acontecendo ao meu redor. O arroz estava queimado pela simples fatalidade da distração em não estar fazendo nada. E se eu levantasse para ver se era o pão do vizinho?
O arroz estava queimado, portanto, agora esse era o motivo, metade de mim lia e outra metade culpava o arroz.

Mariana Zogbi


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