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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Lutar em Silêncio e Vencer no Grito


Intrigava-me sua reação ao susto.
Mulheres, no geral, gritam quando se assustam, mas ela não. Sua reação provocava em mim uma vontade de ir além. Quando estava em perigo, algo ou alguém lhe desse um susto, subitamente, sua primeira reação era um olhar frio, serrava os dentes e só. Não gritava, não xingava a mãe de ninguém, não perdia a pose. Numa dessas minhas percepções, desconfiei que ela fazia isso, justamente para deixar a outra pessoa, que lhe assustara, descompensada, desconfortável. Mas mudei meus conceitos quando a porta de sua casa bateu com tamanha força. Eu pensava que agora sim, a mulher soltaria um berro e amaldiçoaria todos os ventos. Mas não, ela continuou sentada no lugar onde estava, escrevendo, levantou os olhos, como se indagasse a inconveniência do vento em tirar-lhe a concentração, serrou os dentes e quase foi possível ouvir um "nossa, que susto" que mais parecia um sussurro.
Nada mais fazia sentido, não havia ninguém ali para que ela agisse assim, tão friamente.
Uma certa vez, presenciei uma cena marcante, estava ela mexendo em uma de suas gavetas quando: "AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!". Diferentemente das outras vezes, a mulher ficou branca, segurou a boca numa forma de tentar conter o grito que formava em sua alma e gritou. Gritou agudo de modo que atraiu toda a casa para o quarto. As pessoas se entreolhavam, atônitas, e a mulher ainda com as mãos na boca, devolvia um olhar apavorado. Eu olhava para ela com um olhar triunfante, como se aquela cena fosse a chave para minhas indagações, como se lutasse em silencio a melhor das lutas e vencesse com um grito.
No mesmo instante que eu saboreava a vitória, a mulher saiu do quarto, não tirava as mãos da boca e começou a chorar, chorava como se soubesse da luta que eu havia travado com ela, e mais, chorava como se soubesse que havia perdido a luta, a pose, o rebolado, por causa de uma barata.

Mariana Zogbi



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